Eu me pergunto, às vezes, de onde vêem as palavras apelidos das coisas, e me
respondo: de nossas misteriosas forças de associação de elementos do mundo das
idéias ao concreto, ao cinza da concretude. E, tento desvendar esse fenômeno de
apelidamento a tudo que damos bola.
Por vezes, tudo isso, todo esse processo (cansativo até...) não passa de pura fuga. Desvio, mesmo. Fuga! Como a dança de um caranguejo que não se atira de pronto, direto ao ponto, mas dança de lado, circula, volteia, faz-se crer indo em direção tranversa, tangente, à que realmente querem seus tentáculos prender... tudo muito vago, impreciso, indecifrável até que se perceba o fim.
Um desvio, um câncer. Como a perplexidade que nos provocam células "alucinadas" de um imenso exército-organismo (um corpo humano) onde todas têm lá sua função, um início, um envelhecimento, uma procriação e um final, tudo isso dentro de uma finalidade, dentro de uma razão de ser. Todas interpenetram-se em suas funções, humores, estímulos e sabe-se lá mais com o que (como as formigas...) misteriosamente articulam-se, "comunicam-se", e levam adiante o "projeto" organismo que prossegue caminhando (com razão?) sobre a fina casca de uma bola que arde em chamas por dentro, embora envolva-se em tanta água... e, de repente, tais "alucinadas" células perdem a razão de ser e irracionalmente, sem justo motivo, replicam-se, replicam-se, replicam-se... orgiam-se, orgiam-se, orgiam-se numa espécie de revolta do querer ser mais e acima de tudo, sempre mais, porém, sem um porquê (um fim) que justifique essa ânsia de querer o corpo todo só para si, de anexar todo o imenso (quase-universo) território-corpo, ao seu microscópico lugar, alastrando-se, como um Napoleão, um Hitler, anexando toda Europa para si, minúsculo si...
Esta mesma perplexidade é a que se apodera de mim ao comparar os mesmos desvios nos exércitos-organismos em sua expressão maior, em seu todo. Eles perdem a razão e não agem com propósitos, mesmo assim, se agissem mesmo que por esses propósitos, estariam agindo dentro de propósitos, com uma razão de ser, um porquê (mesmo que um bobo porquê...), agiriam com propósito, sem desvio. Agiriam reto, sem desvios.
Mas, não, desviam-se. Como um câncer, fazem coisas sem fundo, sem razão de ser. Queimam energias demais criando coisas indecifráveis que se esvaem. E, não se diz mais a um outro ser "Vem cá! Porque só quero te ver! Só te olhar e ver se está tudo bem!"; não se diz mais "Quero passar doze horas ao seu lado, sem explicação, simplesmente quero, podemos até não fazer nada, mas estaremos ali, no mesmo espaço geográfico!"; não se dizem mais coisas diretas de lá da alma. Os desejos, porém, continuam ali. A partir disso, cancerosamente, os seres, em fuga de assumir essas falas "banais", replicam, replicam, replicam absurdos, mal-entendidos, enigmas indecifráveis, frases indecifráveis, quais esfinges a devorarem os que não resolvem seus dilemas, atapetam o caminho que leva até eles com finas cascas de ovos e gritam "NÃO AS QUEBRE!" ao mesmo tempo que sussurram "VENHA ATÉ MIM!". O que só poderia provocar o olhar de perplexidade; olhar confusão, de quem pisa em ovos.
Hilde Camargo- 12/10/2010
Por vezes, tudo isso, todo esse processo (cansativo até...) não passa de pura fuga. Desvio, mesmo. Fuga! Como a dança de um caranguejo que não se atira de pronto, direto ao ponto, mas dança de lado, circula, volteia, faz-se crer indo em direção tranversa, tangente, à que realmente querem seus tentáculos prender... tudo muito vago, impreciso, indecifrável até que se perceba o fim.
Um desvio, um câncer. Como a perplexidade que nos provocam células "alucinadas" de um imenso exército-organismo (um corpo humano) onde todas têm lá sua função, um início, um envelhecimento, uma procriação e um final, tudo isso dentro de uma finalidade, dentro de uma razão de ser. Todas interpenetram-se em suas funções, humores, estímulos e sabe-se lá mais com o que (como as formigas...) misteriosamente articulam-se, "comunicam-se", e levam adiante o "projeto" organismo que prossegue caminhando (com razão?) sobre a fina casca de uma bola que arde em chamas por dentro, embora envolva-se em tanta água... e, de repente, tais "alucinadas" células perdem a razão de ser e irracionalmente, sem justo motivo, replicam-se, replicam-se, replicam-se... orgiam-se, orgiam-se, orgiam-se numa espécie de revolta do querer ser mais e acima de tudo, sempre mais, porém, sem um porquê (um fim) que justifique essa ânsia de querer o corpo todo só para si, de anexar todo o imenso (quase-universo) território-corpo, ao seu microscópico lugar, alastrando-se, como um Napoleão, um Hitler, anexando toda Europa para si, minúsculo si...
Esta mesma perplexidade é a que se apodera de mim ao comparar os mesmos desvios nos exércitos-organismos em sua expressão maior, em seu todo. Eles perdem a razão e não agem com propósitos, mesmo assim, se agissem mesmo que por esses propósitos, estariam agindo dentro de propósitos, com uma razão de ser, um porquê (mesmo que um bobo porquê...), agiriam com propósito, sem desvio. Agiriam reto, sem desvios.
Mas, não, desviam-se. Como um câncer, fazem coisas sem fundo, sem razão de ser. Queimam energias demais criando coisas indecifráveis que se esvaem. E, não se diz mais a um outro ser "Vem cá! Porque só quero te ver! Só te olhar e ver se está tudo bem!"; não se diz mais "Quero passar doze horas ao seu lado, sem explicação, simplesmente quero, podemos até não fazer nada, mas estaremos ali, no mesmo espaço geográfico!"; não se dizem mais coisas diretas de lá da alma. Os desejos, porém, continuam ali. A partir disso, cancerosamente, os seres, em fuga de assumir essas falas "banais", replicam, replicam, replicam absurdos, mal-entendidos, enigmas indecifráveis, frases indecifráveis, quais esfinges a devorarem os que não resolvem seus dilemas, atapetam o caminho que leva até eles com finas cascas de ovos e gritam "NÃO AS QUEBRE!" ao mesmo tempo que sussurram "VENHA ATÉ MIM!". O que só poderia provocar o olhar de perplexidade; olhar confusão, de quem pisa em ovos.
Hilde Camargo- 12/10/2010
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