sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

NADA DEMAIS...

NADA DEMAIS...


Eu posso, de fato, deixar minha mente galopar qual poderoso corcel de fogo, quase supersonicamente, até fantásticos e absurdos lugares ideais (lugares-idéias) onde tudo se encaixe, faça sentido, e minha alma encontre a plenitude pela qual tanto anseia, e sejam esses lugares onde tudo se explique e façam sentido passado, presente e futuro, e eu possa ver do alto destes lugares a totalidade da explicação do sentido de nossas vidas e tudo, enfim, faça sentido; eu posso tudo isso talvez... como todos poderiam se não estivessem tão esquecidos de si mesmos de problema em problema, qual andantes de pousada em pousada.
Sim, poderíamos, se antes de tudo soubéssemos, de antemão, que após tudo isso, todo este orgasmo conceitual, soubéssemos tranqüilos, antes do início do percurso, que tudo isso seria apenas para descermos novamente ao cotidiano e nos sentarmos logo ali, na próxima e ignota esquina e saborearmos um simples sorvete – ou uma água se estivéssemos de regime. Sem flashes ou apoteoses. Orgasmo apenas... consumação de jornada...
O dia que o saber for menos “status”, seremos todos um pouco mais inteligentes, naturalmente.
Constantemente interrompemos (não por querer...) a solução do mistério do universo, aflitos, para não perdermos a hora de pagarmos mais uma última prestação qualquer...

Hilde Camargo – num/dia/esquisito.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Destinos

Os povos do deserto esperam alguém que nunca chega. Massobrevivem os seus clãs porque não dão a mínima para isso.      Os ciganos não sabem de onde vêm...sobrevivem,agora.Já os persas... quando Mitra não retornou mesmo, não sobreviveramcomo governo persa, seguraram-se em outra fé segundo a qual Babilônia édemoníaca e não influi em mais nada.
      Os hindus sobreviveram porque todos são parte do corpo de Brahmae há sempre um culpado pária para limpar seus vasos; enquanto osbudistas sobrevivem também, pois há um buda a sorrir.
      Os faraós egípcios duraram alguns milênios pois lamentavam amutilação de Osíris, e mais forte ainda...sua emasculação...e seuretorno prometido mantinha os faraós no poder, a esperá-lo... enquantotodos se entretinham com as admiráveis aparições de Ka...sempre ligadoao umbigo de uma virgem...
      Os soberanos astecas dominaram por milênios pois lamentavam Coatzcale seu emboscamento e se mantiveram firmes no poder aguardando seu retornocomo "branco" pelo Atlântico... quando alguém parecido chegou, seu poder nãoera mais necessário nem suas carnificinas...
      Os gregos donos das cidades sobreviviam enquanto as pessoas esperavamencontrar um de seus Deuses disfarçados como mendigo, governante ou umaviúva para testar sua piedade. Quando cristo começou a ser referência, a Gréciados Deuses não sobreviveu, nem mesmo a pureza de sua língua, não esperavam mais a visita surpresa de algum Deus. Hoje, lamentar ortodoxamente um crucificado exigeoutro protocolo de sobrevivência. 
      Os romanos sobreviveram por meio da Igreja Apostólica Romana porque haviaum Cristo a ser lamentado; Hitler não sobreviveu porque não lamentounenhum Cristo... aliás, fez o contrário, buscou apagar do mundo o DNA dagente dele; o califado não ocorrerá e se vier a ocorrer não sobreviverá porquenão terá sobre quem lamentar! Não terá, isto é certo! 

domingo, 4 de janeiro de 2015

O QUE BASTA


            Não basta dizer “eu queria estar ali”, ou, “queria estar aí...”.
            Não basta! Não... E, muito menos, imaginar, ou, supor, ver o sol nascer pela mesma perspectiva que o objeto de seu amor próprio.
            Sim, amor próprio... Este que idealiza as coisas mais banais, mais cotidianas, e que banaliza, que se coloca à distância segura, que rejeita e despreza o verdadeiro amor, o querer bem a um qualquer.
            Não basta desejar, idealizar coisas tão simples e cotidianas, numa alucinada projeção de seu próprio amor ou de sua boa performance.
            Não basta teimar em dizer que é amor o que não passa de um enfeite à sua personalidade.

            O que basta é aquele sutil, porém, eloquente, divisor de almas, que singela e instantaneamente separa aqueles ridicularizados que fazem o trivial e cotidiano daqueles ridículos que esperam o ideal, o maravilhoso, o bombástico, e, carregado de efeitos, acontecer, sem ao menos terem passado perto de tocar a realidade (ou de lha dizer Bom Dia!...).

Hilde Camargo - 03.01.2015

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

PARA PODER ODIAR

 Para poder odiar uma pessoa ou uma coisa há que se ter profunda admiração por alguma de ou por todas suas qualidades. Há algo, no objeto de ódio, digno da atenção do “odiante”. O que lhe provoca profundo arrebatamento e admiração. Há ali algo que mexe com o mais íntimo de suas entranhas e no mais secreto de sua mente que ainda se pode ocultar.
     Algo que o sacuda, que o atordoe, que lhe dê ganas de viver, usufruir... ou, então, que lhe dê ganas de corrigir, de alterar, de endireitar segundo seus conceitos. Enfim, algo que não permita a apatia ou o controle de si mesmo. Vontade de tudo, menos de permanecer apático.
      E... para, enfim, poder odiar é necessário que lhe fique claro, cristalino, que jamais poderá satisfazer, aplacar, esta sede de tomar daquilo para si. Sede essa, advinda da admiração. E tal certeza de não poder aplacá-la, de forma alguma..., gera o ódio mais visceral, animalesco, selvagem...
Eis a receita para se perder o mundo...

domingo, 28 de dezembro de 2014

The nothing

      I could write the more sad verses this night, but I am not Neruda, not in this life, yet.
      Was exactly here, in this words that I stopped my wandering the last night when I tried have some words spitting out from myself.
      But still I have only poured some liquids, strange liquids from my pain, I wanted say, my pen.
      When I stopped I was like now... trying to do something... something that certainly was not a verse, neither the more sad ones. Because I do not know what love is as much one needs to know wich are the more sad verses.
      This last lack was the, untill now, wich one was the minor. Could not have completed even three years, was only two and something.
      Today I am in that other side from lackness period. I am in that kind of night where you can write the more sad (or almost it) verses, if... you were Neruda... But then, you remember you are not, and your rocky and cold heart was not made for love. Only love and nothing more, a desert of love, a desert called love, a improbably sufocating box but wide desert of love. Only love, wherever you look... love. Without yourself, without friends, without time, and, without life into a mass in a mess of lives.
      One can stopp in a lack of life writtin due to so many reasons. But the strongest reason came to me as my rock here into my chest ( that people insisted in calling heart...) being invaded again.
      And when I want to escape from my pain, my pen, I mean, I can find a lot of pretexts of respect to someone, charity, giving to other one his or her turn to show me, to show me something more of that desert.
      When my rock beats again, I can see the world, I can feel the eras with all that they really need in true... I can see again that we are nothing, and that is our peace and reason to broke with our indifference, with our unnecessary wonder walls, and, then, breath...
      Breath not because we are special or untouchable, breath only why we are nothing and so we have not all this responsability to being perfect everytime or mean something.
      We only are! Such as anything.
      Everytime I finish a lack and can feel again this nothing, I can write once more. And it could be the more sad words, but it would not be so sad, because I am out again, out from the lack, out from the desert, so, sad means nothing again,
      Then I realize that I could write the more "nothing" words today. And, in fact, I just did it, right now.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Você e eu em mim (n.2)

VOCÊ E EU EM MIM (I)

CAPÍTULO I

      Todas as noites destes últimos anos eu saio. Como que fora de mim, dou as mesmas voltas, instintiva e mecanicamente vou aos mesmos lugares, às mesmas pessoas... rotina, nem doce nem amarga, apenas mais uma rotina.
      Eu poderia não o fazer. Daria um rumo melhor à minha vida. Mas, quando dou por mim, nada mudou, eu não mudei... Estou qual um cachorro vadio e sem destino, eu estou vazio atrás dela.
      Algumas noites eu encontro alguém legal para ficar, homem ou mulher, não me importa. Mas são todos e todas iguais a mim, vazios e vazias dela. Nem mais sei se dela realmente, ou se de tudo que imagino, entusiasmado,  possa representá-la. Esse tudo e tanto que ela encarna, a mim, e simboliza em sentido e plenitude de vida para mim.
      Numa procura estafante, eu saio por obrigação, eu me vinculo a certas pessoas por obrigação, eu viajo, eu me desgasto, eu me perco, por obrigação de encontrá-la. De vê-la, de possuí-la toda. E minha vida se perdeu por entre as rotas tão racionais e calculadas que traço nas noites. E pessoas me são perfeitas e nos fazemos bem, muito bem até que eu me recorde que não são ela. E, satisfeitos todos, eu os vejo e a mim também paralelamente vazios de um certo alguém... E não abandono a rotina, entrego-me ao seu fluxo até parar em pessoas, para depois retomar meu vício.
      E nele me esquecer de que me chamo simplesmente João, é, João, não John ou Johny, ou Joe; João mesmo, João da Silva, e que tenho trinta e dois anos de idade e curso engenharia. Que não é engenharia da Poli nem de outra brilhante faculdade, é de uma qualquer particular, e nem sei se vou nela até o fim ou se desisto, não por falta de grana porque meu pai me dá tranqüilo mais de cinco mil por mês e nem me pergunta para quê; e, eu, por minha vez nem sei para onde essa grana vai nem de onde é que vem. Nunca pensei nisso. E também não sei se me interesso em fazer faculdade alguma. Eu poderia ser jornalista e vê-la sempre ou a descobrir, às vezes, mas... teria de estudar demais.
      Quando eu era pequeno e não podia ainda ir à escola, logo que eu comecei a falar, meu pai, enquanto lia seu jornal de economia (ele é economista), me pegou dizendo algumas palavras que lhe soavam familiares, só por isso parou a leitura, levantou o jornal e me viu só de fralda ali na frente dele, eu comecei a rir; e, antes dele me xingar e mandar parar de incomodar, olhou o verso de seu jornal, a parte que ficara voltada para mim, e, pálido, balbuciou as mesmas palavras que havia escutado de minha boca.
      Saltou-me como um corcel fogoso e correu toda a casa anunciando a fantástica novidade. Tinha um filho gênio. Bem, realmente, tinha e tem um filho. O gênio, todos nós procuramos até hoje...
      Aliás, percebam, minha vida é procurar... sempre fui assim. Até que meu tio-avô, lungüista nato, mas diplomado também, além de grande poeta, em sua sensibilidade e profunda pena de seu sobrinho (o meu pai) como que numa cruzada quixotesca empenhou-se com o resto de todas as suas forças fazer-me poeta ou escritor ao menos. Mesmo que, grande poeta que era, soubesse que poetas não se fabricam. Tentou, enfim. Desesperadamente tentou. E antes que se fosse, conseguiu, ao menos, introduzir-me ao mundo das letras.
      Esta ânsia tinha lá sua razão. Ele e meu, aliás, ele, meu pai, minha mãe, minha única avó (materna), as empregadas, (não tenho irmãos), os cachorros, a grama do jardim, os vizinhos, a cidade (Iracema do Norte, interior do sudeste brasileiro), todos, todos, inclusive eu (do alto de meus dezessete anos a essa época), sabíamos: Eu! Bem, eu não queria era ser nada! Nem padre nem budista nem harekrishna nem polícia nem bandido nem traficante nem mendigo. Poeta? Tinha pena de dizer não a um tio-avô tão idoso (oitenta e sete anos).
      Era tempo do Fernando Henrique ainda ilustre desconhecido, mas o plano real não saía da boca de meu pai, de suas conversas, da mesa do jantar, e ele não nos deixava olhar para a TV ligada enquanto falava dos zeros sendo cortados, do  dólar e de todo aquele economês traumatizante (para mim, ao menos). E minha missão, o sentido de minha vida passou a ser fugir obstinada e apavoradamente (como um pequeno demônio ao qual a cruz fará derreter...) do meu pai e daquele enorme rolo compressor que era o dever de ser o futuro gênio da Economia! O ultrapassador de Marx e etc! E eu fugia desesperadamente!
      Bem mais confortável era o plano B de meu tio-avô, mais "tranquilão", ele me passava as coisas do mundo das letras. Por caridade moral eu as ouvia. Até que peguei um certo gosto. Como daquele animalzinho que a gente não quer, mas ele vai ficando na casa e, por fim, a gente se apega a ele. Apeguei-me ao mundo do meu tio-avô, seu Guilherme era seu nome. Costa, Guilherme Costa da Silva.
      Meu pai, Júlio da Silva, só. Minha avó tinha horror aos garotos que chamavam junior na vizinhança, todos eram encapetados, como ela dizia. Como o nome do meu avô era Júlio Costa da Silva, o meu pai seria Júlio Costa da Silva junior. Daria em junior, juninho o coisa assim, ela, supersticiosa (das superstições dela, de propriedade inelectual somente dela, nada de clichês de escadas, espelhos quebrados ou gatos pretos...), fez tirar o Costa (que também, segundo ela era uma parte esdrúxula do corpo só que sem a letra s no final, grafada errado ainda; ou, então uma ribanceira, despenhadeiro a próximo ao mar, enfim, poderia tirar que ela não ligava).
      Meu avô era do tipo "muito macho", mas... era isso ou o suicídio dela. Bem, meu pai ficou com  nome Júlio da Silva, Julinho, e ponto. E eu João da Silva, pois minha mãe é Mirtes Silva.
      Guilherme Costa da Silva, peguei vários livros em sua imensa sala de leitura com seu próprio nome. Ele tinha muitas poesias. Através delas pude entrever o que ele passou. Tive curiosidade sobre o tempo em que ele tinha a minha idade, só um pouco. E ele me meteu um Curso Completo de História Geral e do Brasil. Afeiçoei-me também. Meu pai vibrou, minha mãe chorou de emoção. Mas estou aí, na vida, não sou o próximo baluarte da ciência História! Eu curto ler História, mas é só isso.
      Meu tio-avô faleceu dia primeiro de agosto de dois mil e quatro e me deixou de herança toda sua sala de leitura. E em torno dela, como envoltório, a sua casa, sua cozinha, seu jardim e seu quintal. É a casa onde vivo hoje. Mais para não ter que ser o futuro expoente de alguma ciência (acadêmica!) do que para viver só, aqui... tão só. Escrevo e pego baladas! Mais vou às baladas que escrevo. Aliás, escrever o quê?! A única coisa que me faz escrever é... ela! Aquela mulher, menina, piranha, santa, sei lá do que chamá-la. Raios!
      Queria mesmo a minha mãe, mas, fujo do futuro brilhante gênio "João da História", "João das Letras", "João da Economia", "João da Música", "João de Deus". Fujo. É triste meu caminho. Solitário andar por tanta gente fingindo a mesma "alegria" e "fodice" que você mesmo, um mar de idiotas e você "o mais ainda", sabendo enganar-se e fingindo assim mesmo sem conseguir parar, sem poder parar; sem sentido nenhum. Mas, entre isso e nada, isso é alguma coisa. E, prosseguimos.
      E não sei se isto é um bom texto, se o capítulo está muito extenso. As pessoas preferem o quê quando já não há mais tempo para se lerem umas às outras? Já não sei se deveria ter capítulos ou apenas ser isto tudo um peido de cento e quarenta caracteres. Não sei, temo que vazaria algo mais, um negativo e vermelho algo mais não caberia... escrevo em capítulos um livro, enfim.
      Enfim, enfim, enfim, uso muito a palavra enfim, usava então atrás de então até que um ser perfeito achou graça e eu fiquei sem jeito. Toda vez que ouço esta palavra me lembro deste ser, enfim. Acho graça. Aliás, todo mundo é uma graça, mas não é ela...
      Eu até me dou bem para todo mundo, quer dizer, me dou bem com todo mundo. Não sei se o capítulo ficará muito extenso, mas, às vezes, pressinto que sei ser bacana até, mas e daí?!
      Eu sou eu e as pessoas são as pessoas, bacanas também, mas e daí?! Este mundo, às vezes, fica tão cinza e quanto mais as pessoas querem amor, foda, lambidas sei lá, quanto mais querem menos dizem isso e mais agridem. Eu não tenho de ser bacana a toda hora debaixo de socos e pontapés mesmo que eles venham de amor não dito! Eu diria sem problema algum que desejo as pessoas, mas para depois de tudo dizer que essa pessoa não era ela. Eu poderia, sim, mas pressinto que seria o mesmo que dizer lá em mil novecentos e noventa e cinco ao meu tio-avô que não queria saber de suas poesias nem de seu fantástico mundo das letras. Não conseguiria.
      Eu não sei se o senhor Guilherme Costa da Silva teve ganas de me tratar como estes seres, tão perfeitos para eu suar, me tratam, com a ira que vi saírem de seus olhos por eu não dizer as coisas que deveria. Bem, se ele teve essas ganas, não percebi. Talvez um dia eu me descubra em alguma de suas poesias em que reclama sobre a pusilanimidade e falta de tesão que assola o mundo. Não me lembro também se ele deve ter rimado algo sobre falta de foco... sei lá! É recente ainda seu falecimento, faz apenas seis anos e quatro meses. Não me caiu a ficha ainda que o meu ancestral poeta já se foi. E só me ficaram seus ecos de alguma rima ainda não completa, "pós-graduação... pós-graduação... pós-graduação..., "oriente-se"...
      E, de repente, um "Então, resolve isso logo!" me acorda, enfim! Não consigo abraçar o mundo. As coisas devem ser feitas uma de cada vez! E o mundo passa pujante, que vontade de agarrar! Mas... as pessoas continuam desfilando sem noção e quando me reparo pergunto ainda, como sempre, "para onde vão?!". O silêncio da noite responde frio, cortante, seco e duro: "Lugar nenhum que não seja ela"! Acordo, enfim! Acordo, mas vejo que minha mão não parou de escrever um mísero segundo uma comédia de mim, tão idêntico a todos, então, uma breve comédia de nós, onde enlaçamos inesperadamente a todos nós mesmos. Porém, não exatamente com a enlaçada ou a encaixada que desejávamos ou que queríamos. Acordo. E a vida na ponta da caneta não parou. Nunca vai parar. Como esta mulher que procuro. Meu desejo.
      E ela é tão dialeticamente oposta a mim! Eu devo ser muito rico (creio eu), ela, eu sei, embora inventem o oposto, é muito pobre; eu como todas as refeições e também não sei onde meter cinco mil de mesada, ela, eu sei, embora mintam que não, toma o café da manhã para ir caçar à unha o jantar; eu sou isso aí que disse até agora (quase nada, não?), ela, eu sei, embora o que dizem pareça um pouco menos ainda que eu, adora estudar, lutou para escolher a profissão que quis, embora se esforcem para parecer o contrário, tem toda a determinação que eu não tenho, e se sai uma vez por ano, ainda corro o risco de estar exagerando, nisso não consigo crer! Como ela consegue?! Deve ser mentira. Saio todas as noites só para pegá-la de surpresa! Por todos estes anos eu devo ter passado bem perto de encontrá-la, se não consegui, foi por um triz!
      Só temos eu e ela uma única coisa em comum: ela também é dada a escrever. Só lhe falta mais estudo. Faltou mesmo meu tio-avô! Juro que o emprestaria, minto, eu o daria todinho a ela de bom grado, e a mim também e não pararia aí não, daria toda esta sala de leitura de onde escrevo agora e toda esta residência que a envolve, minto, daria o mundo. Creio estar apaixonado.
      Imagino onde ela estaria agora, o que estaria fazendo. Será que me conhece, já ouviu falar de mim, ao menos? Ela não sai da toca. Penso em descobrir onde ela trabalha, mas me arrependo em seguida. O que eu diria, o que eu faria?
      Por fim, volto sempre ao mesmo ponto. O que me resta é escrever sobre ela. Foi assim que comecei a rabiscar estas palavras e inspirado na determinação dela, vou até o fim! Talvez não a encontre nunca, talvez ela não exista, talvez o nome dela não seja Elisa Camati. Que nome bonito. João da Silva rico, Elisa Camati pobre. Comédia.
      Escrevo por Elisa, escrevo Elisa. Já ganhei bastante dinheiro escrevendo Elisa, matando Elisa, inventando Elisa, amando Elisa, comendo Elisa em todos os sentidos. Mas, realmente, nunca tive Elisa. Elisa Camati. Ontem vi o comercial daquele carro Camaro, lembrei dela! Das muitas novelas que "punhetei" Elisa para o mundo, imaginei Elisa chiquérrima pilotando tudo aquilo, "punhetei" em cenas e cenas de novela até cansar. Depois me senti culpado. Se for verdade que ela ainda não jantou? Eu a escrevo e ganho a grana que não preciso. Ganho o que falta para ela. E será que ela ainda me cantaria "Venha me beijar, meu doce vampiro..."?!
      Oh! Culpa tremenda! Quero borrar e preencher todo este papel com tinta por letras e mais letras, palavras completas de sentido até acabar com este meu vazio, esta minha culpa!
     
Mea culpa, Elisa, mea culpa! Mas quero, tenho que dividir com o mundo esta mulher, esta garota que nunca peguei!
      Por isso decidi escrever "nosso" passado. Tenho trinta e dois anos de idade, ela tem trinta anos de idade. Nasci no dia onze de março de mil novecentos e setenta e oito; ela nasceu dia onze de março de mil novecentos e oitenta. Será verdade?

Hilde Camargo - 10/12/2010

[CAPÍTULO II]

Você e eu em mim (n.1)

VOCÊ E EU EM MIM

 
PREFÁCIO


      Existem amores, inventados ou não, que procuramos a vida toda e desesperamos  de os encontrar mesmo que uma única vez,
en passant. E existem amores que não esperamos jamais, que nem são tão amores nem tão desejados, mas se perfazem, completos, começo, meio e fim, tudo tão simples, sem complicações. E se vão ou ficam em outras formas. Existem, enfim.
      Do mesmo modo, existem livros, existem romances, existem novelas e etc. Existem amontoados de letras pertencentes a uma classificação (ou taxonomia?) acadêmica qualquer que nos angustiamos em lhes dar sentido: começo, meio e fim. Porém, ou eles nunca terminam ou nem mesmo começam. Como aquele amor que esperamos a vida toda sem nos darmos conta de que ela passou. E como que num mundo, todo paralelo, simplesmente vivemos o surgimento de um livro qualquer, porém já perfeito, em termos de começo, meio e fim.
      E esta coisa inexplicável é este aqui, enfim.

Hilde Camargo - 10/12/2010, 4:00 da matina, em verdade, meu reloginho do computer está errado.

[CAPÍTULO I]