VOCÊ E
EU EM MIM (I)
CAPÍTULO I
Todas as noites destes últimos anos eu saio.
Como que fora de mim, dou as mesmas voltas, instintiva e mecanicamente vou aos
mesmos lugares, às mesmas pessoas... rotina, nem doce nem amarga, apenas mais
uma rotina.
Eu poderia não o fazer. Daria um rumo melhor à
minha vida. Mas, quando dou por mim, nada mudou, eu não mudei... Estou qual um
cachorro vadio e sem destino, eu estou vazio atrás dela.
Algumas noites eu encontro alguém legal para
ficar, homem ou mulher, não me importa. Mas são todos e todas iguais a mim,
vazios e vazias dela. Nem mais sei se dela realmente, ou se de tudo que
imagino, entusiasmado, possa representá-la. Esse tudo e tanto que ela
encarna, a mim, e simboliza em sentido e plenitude de vida para mim.
Numa procura estafante, eu saio por obrigação,
eu me vinculo a certas pessoas por obrigação, eu viajo, eu me desgasto, eu me
perco, por obrigação de encontrá-la. De vê-la, de possuí-la toda. E minha vida
se perdeu por entre as rotas tão racionais e calculadas que traço nas noites. E
pessoas me são perfeitas e nos fazemos bem, muito bem até que eu me recorde que
não são ela. E, satisfeitos todos, eu os vejo e a mim também paralelamente
vazios de um certo alguém... E não abandono a rotina, entrego-me ao seu fluxo
até parar em pessoas, para depois retomar meu vício.
E nele me esquecer de que me chamo simplesmente
João, é, João, não John ou Johny, ou Joe; João mesmo, João da Silva, e que
tenho trinta e dois anos de idade e curso engenharia. Que não é engenharia da
Poli nem de outra brilhante faculdade, é de uma qualquer particular, e nem sei
se vou nela até o fim ou se desisto, não por falta de grana porque meu pai me
dá tranqüilo mais de cinco mil por mês e nem me pergunta para quê; e, eu, por
minha vez nem sei para onde essa grana vai nem de onde é que vem. Nunca pensei
nisso. E também não sei se me interesso em fazer faculdade alguma. Eu poderia
ser jornalista e vê-la sempre ou a descobrir, às vezes, mas... teria de estudar
demais.
Quando eu era pequeno e não podia ainda ir à
escola, logo que eu comecei a falar, meu pai, enquanto lia seu jornal de
economia (ele é economista), me pegou dizendo algumas palavras que lhe soavam
familiares, só por isso parou a leitura, levantou o jornal e me viu só de
fralda ali na frente dele, eu comecei a rir; e, antes dele me xingar e mandar
parar de incomodar, olhou o verso de seu jornal, a parte que ficara voltada
para mim, e, pálido, balbuciou as mesmas palavras que havia escutado de minha
boca.
Saltou-me como um corcel fogoso e
correu toda a casa anunciando a fantástica novidade. Tinha um filho gênio.
Bem, realmente, tinha e tem um filho. O gênio, todos nós procuramos até
hoje...
Aliás, percebam, minha vida é
procurar... sempre fui assim. Até que meu tio-avô, lungüista nato,
mas diplomado também, além de grande poeta, em sua sensibilidade e profunda
pena de seu sobrinho (o meu pai) como que numa cruzada quixotesca empenhou-se
com o resto de todas as suas forças fazer-me poeta ou escritor ao menos. Mesmo
que, grande poeta que era, soubesse que poetas não se fabricam. Tentou, enfim.
Desesperadamente tentou. E antes que se fosse, conseguiu, ao menos,
introduzir-me ao mundo das letras.
Esta ânsia tinha lá sua razão. Ele e meu,
aliás, ele, meu pai, minha mãe, minha única avó (materna), as empregadas, (não
tenho irmãos), os cachorros, a grama do jardim, os vizinhos, a cidade (Iracema
do Norte, interior do sudeste brasileiro), todos, todos, inclusive eu (do alto
de meus dezessete anos a essa época), sabíamos: Eu! Bem, eu não queria era
ser nada! Nem padre nem budista nem harekrishna nem polícia nem bandido nem
traficante nem mendigo. Poeta? Tinha pena de dizer não a um tio-avô tão idoso
(oitenta e sete anos).
Era tempo do Fernando Henrique ainda ilustre
desconhecido, mas o plano real não saía da boca de meu pai, de suas conversas,
da mesa do jantar, e ele não nos deixava olhar para a TV ligada enquanto falava
dos zeros sendo cortados, do dólar e de todo aquele economês traumatizante
(para mim, ao menos). E minha missão, o sentido de minha vida passou a ser
fugir obstinada e apavoradamente (como um pequeno demônio ao qual a cruz fará
derreter...) do meu pai e daquele enorme rolo compressor que era o dever de ser
o futuro gênio da Economia! O ultrapassador de Marx e etc! E eu fugia
desesperadamente!
Bem mais confortável era o plano B de meu
tio-avô, mais "tranquilão", ele me passava as coisas do mundo das
letras. Por caridade moral eu as ouvia. Até que peguei um certo gosto. Como
daquele animalzinho que a gente não quer, mas ele vai ficando na casa e, por
fim, a gente se apega a ele. Apeguei-me ao mundo do meu tio-avô, seu Guilherme
era seu nome. Costa, Guilherme Costa da Silva.
Meu pai, Júlio da Silva, só. Minha avó tinha
horror aos garotos que chamavam junior na vizinhança, todos eram encapetados,
como ela dizia. Como o nome do meu avô era Júlio Costa da Silva, o meu pai
seria Júlio Costa da Silva junior. Daria em junior, juninho o coisa assim, ela,
supersticiosa (das superstições dela, de propriedade inelectual somente dela,
nada de clichês de escadas, espelhos quebrados ou gatos pretos...), fez tirar o
Costa (que também, segundo ela era uma parte esdrúxula do corpo só que sem a
letra s no final, grafada errado ainda; ou, então uma ribanceira, despenhadeiro
a próximo ao mar, enfim, poderia tirar que ela não ligava).
Meu avô era do tipo "muito macho",
mas... era isso ou o suicídio dela. Bem, meu pai ficou com nome Júlio da
Silva, Julinho, e ponto. E eu João da Silva, pois minha mãe é Mirtes Silva.
Guilherme Costa da Silva, peguei vários livros
em sua imensa sala de leitura com seu próprio nome. Ele tinha muitas poesias.
Através delas pude entrever o que ele passou. Tive curiosidade sobre o tempo em
que ele tinha a minha idade, só um pouco. E ele me meteu um Curso Completo de
História Geral e do Brasil. Afeiçoei-me também. Meu pai vibrou, minha mãe
chorou de emoção. Mas estou aí, na vida, não sou o próximo baluarte da ciência
História! Eu curto ler História, mas é só isso.
Meu tio-avô faleceu dia primeiro de agosto de
dois mil e quatro e me deixou de herança toda sua sala de leitura. E em torno
dela, como envoltório, a sua casa, sua cozinha, seu jardim e seu quintal. É a
casa onde vivo hoje. Mais para não ter que ser o futuro expoente de alguma
ciência (acadêmica!) do que para viver só, aqui... tão só. Escrevo e pego
baladas! Mais vou às baladas que escrevo. Aliás, escrever o quê?! A única coisa
que me faz escrever é... ela! Aquela mulher, menina, piranha, santa, sei lá do
que chamá-la. Raios!
Queria mesmo a minha mãe, mas, fujo do futuro
brilhante gênio "João da História", "João das Letras",
"João da Economia", "João da Música", "João de
Deus". Fujo. É triste meu caminho. Solitário andar por tanta gente
fingindo a mesma "alegria" e "fodice" que você mesmo, um
mar de idiotas e você "o mais ainda", sabendo enganar-se e fingindo
assim mesmo sem conseguir parar, sem poder parar; sem sentido nenhum. Mas,
entre isso e nada, isso é alguma coisa. E, prosseguimos.
E não sei se isto é um bom texto, se o capítulo
está muito extenso. As pessoas preferem o quê quando já não há mais tempo para
se lerem umas às outras? Já não sei se deveria ter capítulos ou apenas ser isto
tudo um peido de cento e quarenta caracteres. Não sei, temo que vazaria algo
mais, um negativo e vermelho algo mais não caberia... escrevo em capítulos um
livro, enfim.
Enfim, enfim, enfim, uso muito a palavra enfim,
usava então atrás de então até que um ser perfeito achou graça e eu fiquei sem
jeito. Toda vez que ouço esta palavra me lembro deste ser, enfim. Acho graça.
Aliás, todo mundo é uma graça, mas não é ela...
Eu até me dou bem para todo mundo, quer dizer,
me dou bem com todo mundo. Não sei se o capítulo ficará muito extenso, mas, às
vezes, pressinto que sei ser bacana até, mas e daí?!
Eu sou eu e as pessoas são as pessoas, bacanas
também, mas e daí?! Este mundo, às vezes, fica tão cinza e quanto mais as
pessoas querem amor, foda, lambidas sei lá, quanto mais querem menos dizem isso
e mais agridem. Eu não tenho de ser bacana a toda hora debaixo de socos e
pontapés mesmo que eles venham de amor não dito! Eu diria sem problema
algum que desejo as pessoas, mas para depois de tudo dizer que essa pessoa não
era ela. Eu poderia, sim, mas pressinto que seria o mesmo
que dizer lá em mil novecentos e noventa e cinco ao meu tio-avô
que não queria saber de suas poesias nem de seu fantástico mundo das
letras. Não conseguiria.
Eu não sei se o senhor Guilherme Costa da Silva
teve ganas de me tratar como estes seres, tão perfeitos para eu suar,
me tratam, com a ira que vi saírem de seus olhos por eu não dizer
as coisas que deveria. Bem, se ele teve essas ganas, não percebi.
Talvez um dia eu me descubra em alguma de suas poesias em que reclama sobre a
pusilanimidade e falta de tesão que assola o mundo. Não me lembro também se ele
deve ter rimado algo sobre falta de foco... sei lá! É recente ainda seu
falecimento, faz apenas seis anos e quatro meses. Não me caiu a ficha ainda que
o meu ancestral poeta já se foi. E só me ficaram seus ecos de alguma rima
ainda não completa, "pós-graduação... pós-graduação... pós-graduação...,
"oriente-se"...
E, de repente, um "Então, resolve isso
logo!" me acorda, enfim! Não consigo abraçar o mundo. As coisas devem
ser feitas uma de cada vez! E o mundo passa pujante, que vontade de agarrar!
Mas... as pessoas continuam desfilando sem noção e quando me reparo pergunto
ainda, como sempre, "para onde vão?!". O silêncio da noite
responde frio, cortante, seco e duro: "Lugar nenhum que não seja
ela"! Acordo, enfim! Acordo, mas vejo que minha mão não parou de
escrever um mísero segundo uma comédia de mim, tão idêntico a todos, então, uma
breve comédia de nós, onde enlaçamos inesperadamente a todos nós mesmos. Porém,
não exatamente com a enlaçada ou a encaixada que desejávamos ou que
queríamos. Acordo. E a vida na ponta da caneta não parou. Nunca vai parar.
Como esta mulher que procuro. Meu desejo.
E ela é tão dialeticamente oposta a mim! Eu devo
ser muito rico (creio eu), ela, eu sei, embora inventem o oposto, é muito
pobre; eu como todas as refeições e também não sei onde meter cinco mil de
mesada, ela, eu sei, embora mintam que não, toma o café da manhã para ir caçar
à unha o jantar; eu sou isso aí que disse até agora (quase nada, não?), ela, eu
sei, embora o que dizem pareça um pouco menos ainda que eu, adora estudar,
lutou para escolher a profissão que quis, embora se esforcem para parecer o
contrário, tem toda a determinação que eu não tenho, e se sai uma vez por
ano, ainda corro o risco de estar exagerando, nisso não consigo crer! Como ela
consegue?! Deve ser mentira. Saio todas as noites só para pegá-la de surpresa!
Por todos estes anos eu devo ter passado bem perto de encontrá-la, se não
consegui, foi por um triz!
Só temos eu e ela uma única coisa em comum: ela
também é dada a escrever. Só lhe falta mais estudo. Faltou mesmo meu tio-avô!
Juro que o emprestaria, minto, eu o daria todinho a ela de bom grado, e a mim
também e não pararia aí não, daria toda esta sala de leitura de onde escrevo
agora e toda esta residência que a envolve, minto, daria o mundo. Creio estar
apaixonado.
Imagino onde ela estaria agora, o que estaria
fazendo. Será que me conhece, já ouviu falar de mim, ao menos? Ela não sai da
toca. Penso em descobrir onde ela trabalha, mas me arrependo em seguida. O que
eu diria, o que eu faria?
Por fim, volto sempre ao mesmo ponto. O que me
resta é escrever sobre ela. Foi assim que comecei a rabiscar estas palavras e
inspirado na determinação dela, vou até o fim! Talvez não a encontre nunca,
talvez ela não exista, talvez o nome dela não seja Elisa Camati. Que nome
bonito. João da Silva rico, Elisa Camati pobre. Comédia.
Escrevo por Elisa, escrevo Elisa. Já ganhei bastante
dinheiro escrevendo Elisa, matando Elisa, inventando Elisa, amando Elisa,
comendo Elisa em todos os sentidos. Mas, realmente, nunca tive Elisa. Elisa
Camati. Ontem vi o comercial daquele carro Camaro, lembrei dela! Das muitas
novelas que "punhetei" Elisa para o mundo, imaginei Elisa chiquérrima
pilotando tudo aquilo, "punhetei" em cenas e cenas de novela até
cansar. Depois me senti culpado. Se for verdade que ela ainda não jantou? Eu a
escrevo e ganho a grana que não preciso. Ganho o que falta para ela. E será que
ela ainda me cantaria "Venha me beijar, meu doce vampiro..."?!
Oh! Culpa tremenda! Quero borrar e preencher
todo este papel com tinta por letras e mais letras, palavras completas de
sentido até acabar com este meu vazio, esta minha culpa!
Mea culpa, Elisa, mea culpa! Mas quero, tenho que dividir
com o mundo esta mulher, esta garota que nunca peguei!
Por isso decidi escrever "nosso"
passado. Tenho trinta e dois anos de idade, ela tem trinta anos de idade. Nasci
no dia onze de março de mil novecentos e setenta e oito; ela nasceu dia onze de
março de mil novecentos e oitenta. Será verdade?
Hilde Camargo - 10/12/2010
[CAPÍTULO II]