quinta-feira, 11 de agosto de 2011

MITOLOGIA


MITOLOGIA

   Antes da Filosofia e em seguida a Ciência, na Grécia tudo era Mitologia. Todas as tragédias, as naturais ou as humanas, as coisas agradáveis ou doloridas, tudo, enfim, tinha uma explicação, uma resposta, e esta era sempre mitológica, fantástica.
   Então, não chovia porque as nuvens carregam vapor de água e quando atinge determinada temperatura volta a ser água e cai de lá de cima, não, era o deus não sei qual que não gostou muito do que tal humano disse e resolveu, e conluio com aquele outro deus com o qual não se falava há anos, fazer chover na cabeça daquele maldito humano. E toda sua família...!
   E se houvesse trovoadas, ora, qualquer criança saberia explicar que os trovões eram de Zeus (se não me engano), o deus mais poderoso do Olímpo, o chefe do Olímpo e de todos que ali residiam, e eram dele os trovões, raios! Esta era fácil de saber, até as mulheres sabiam disso, e crianças também, e não o absurdo que você aí já iria ousando pensar: algo como atmosfera úmida e carregada de elétrons dispersos e... elétricos mesmo, impossíveis... que não se aguentam, que não param quietos no lugar e vão se apertando, apertando, até que um traça um caminho e..., como sabemos, onde passa um boi passa o resto da boiada e pá! Todos o seguem. É um relâmpago que risca o céu tamanha energia elétrica! E o som dessa dança alucinada ouvimos segundos depois da luz: trovão!
   Não, não era isso, tudo era mais mágico, mais fácil, mitológico. Era Zeus castigando um povo todo porque não foi este povo bonzinho com outro povo protegido da futura semideusa não sei do quê cuja qual ele estava há anos querendo possuir e ter uma plêiade de heróis e heroínas que iriam entrar para a história. Como a deusa Europa, lembra-se? Então... era assim... Era?
   Era? Acabou? Mesmo? Podemos estar seguros disso? Esta velha mania de mitos nos abandonou realmente, ou nós, a humanidade, sofremos recaídas severas e cíclicas de tempos em tempos? Será que estamos bem ou a mania de mitos nos assaltou novamente? É fácil notar, anotar, arrotar, que da mania para o pânico é menos que um pulo! E o pânico alimenta socos, coices, chutes, assassinatos, estrangulamentos, cultos ao ódio coletivo, fogueiras, enforcamentos, malhações e tudo que não tenha um motivo, uma razão, tudo que destrói sem motivo, sem saber o porquê.
   Será que já estamos no meio do pulo, saindo da mania e entrando em pânico? Prefiro não tocar nisso... mas, fiquemos na mania de mito. Eu pergunto a mim mesma se voltamos aos mitos, mas mitos com uma roupa nova, porque tudo hoje se explica magicamente, tudo muito fantástico, maravilhoso, quase sobrenatural. Explicações fáceis, baratas, mas apenas para os escolhidos pois a mágica ninguém vê e nunca terão acesso a ela. A explicação é mágica, rápida, fácil, mas ter acesso a ela é praticamente impossível a um mortal, reles mortal. Eu me explico.
   Hoje nós temos a “certeza” de que nossa simples matrícula numa academia de ginástica desencadeia “algo” em nosso corpo, como se entregássemos nosso carro num lava-rápido, déssemos uma volta e o pegássemos limpo de gordura e poeira. Então cadastramos nosso corpo naquele templo e magicamente o resgataremos limpo das gorduras. E não temos mais a ciência de como são os músculos, podemos até comer um na mesa do almoço, mas o nosso esquecemos como é parecido e como ele funciona. Que é feito de células estriadas e elásticas e quando elas se vêem obrigadas a encolher, esticar, encolher, esticar, encolher, esticar, várias vezes, elas se dilatam cada uma delas e o músculo todo que elas formam fica tonificado, dilatado, maior. E que esse encolhe, distende, encolhe, distende pode ser feito na Lua, com peso, sem peso, de n maneiras, desde que você tenha aprendido com quem o estudou a como atingi-lo e encolhê-lo e esticá-lo sem provocar nenhuma lesão nele, até debaixo de uma árvore.
    Mas, não, tudo é mágico, divino-maravilhoso, você tem que fazer o ritual, o ritual mágico e lá no templo misteriosamente tudo vai rolar... você nem sabe como, mas vai... e você sairá saltitante e feliz com seu novo corpozinho recauchutado.
   E o senhor Paulo Freire, se estivesse vivo, não poderia mais ousar e dizer, por exemplo, algo como (palavras minhas, ok?) “Venha cá, meu filho, agora vou ensiná-lo a ler”, e objetivamente ensinar a qualquer pessoa cada letra (como ele fez às centenas!), ensinar juntá-las, etc...  Não! Hoje, um Paulo Freire, pôxa! É um Paulo Freire, ele tem o dom, o cara tem o dom! Ele é quase... um extraterrestre! Ele é especial, nós não sabemos cada uma das letras do alfabeto e como juntá-las não é mesmo? É só ele, o cara que sabe, não é?
   A questão não é mais se queremos, se temos paciência, muita paciência e dedicação, se somos esforçados ou não, ou, se temos medo que aquele analfabeto um dia saiba mais que nós ou não, nos ultrapasse ou não. Não! A questão não é essa, a questão virou a seguinte: só Paulo Freire tem o dom (não um enorme saco, mas dom...) só ele tem o dom, é um ser especial e diferenciado, e, conforme-se, já está morto, o que faz dele um deus praticamente e não ousamos mais fazer as mágicas dele. Por que seríamos ele? Heresia; ou, seríamos acusados de querermos vir a ser ele? Heresia. Oremos, estagnados, gordos e parados, à espera de um salvador que virá não sabemos exatamente quando. Pois é tudo mágico, maravilhoso.
   É preciso ler jornal. Realmente, do mesmo modo que as vizinhas fofocam sobre as outras e sobre os últimos acontecimentos e isso é saudável porque as pessoas sabem do último assalto que houve, que tem um tarado rondando o bairro, que pode ser que fulano venha a matar sua mulher, e se trocam idéias a respeito de o que levou o filho do vizinho a se drogar etc. Ler jornal é vigiar o mundo do mesmo modo que vigiamos nosso bairro (apesar de eu não gostar destas duas coisas... sei que são necessárias...). Ler jornal é preciso, mas criou-se um mito absurdo e miraculoso de que vamos aprender nele o que deveríamos ter aprendido em livros didáticos como “Introdução à Economia” (qualquer autor); “Introdução à Filosofia” (idem); “Introdução à Mitologia” (idem); “Elementos de ...” (qualquer coisa, qualquer autor, raios!)! Criou-se o mito de que não devemos nem saber da existência destes livros, estas coisas são para alguns, para os escolhidos, iniciados, e, nós, reles mortais, ao preço módico de... alguns reais e noventa e nove centavos... faremos uma assinatura e teremos acesso a esse distante templo mágico do saber e magicamente nos transformaremos em pessoas inteligentes só porque viemos a saber uma versão do que houve ontem do outro lado do mundo. Mas, interpretarmos esse acontecimento não é para nós, reles mortais, não porque a questão não é mais lermos ou não um simples livrozinho de “Introdução à...” ou de “Tal coisa para iniciantes...” ou “Primeiras noções de...”, não, para nós estes livros não existem, e, portanto, a informação sobre uma desastrosa fissão nuclear a quilômetros daqui não nos diz nada, não é mesmo? Porque algum escolhido, tem o dom e sabe magicamente, sem explicação, tudo isso que deveríamos ter lido ou tido uma idéia de qualquer forma. Aliás, nunca abrimos uma mera enciclopédia, da web ou das antigas (que foram inventadas à época da Revolução Francesa, no Iluminismo), nunca as abrimos e buscamos, Iluminismo, ou mesmo Mitologia ou elétrons, ou fissão nuclear. Não! Quem sabe isso (além de ser metido! Ou até... ler pensamento...) não foi lá e dedicou seu tempo, seu lazer, não, ele, já nasceu sabendo, não é? Ou... tem uma equipe secreta que faz tudo isso para ele e ele só tira onda, não é? Ele não é esforçado. E você nunca vai mudar, sempre será um reles mortal e invejoso, cheio de ódio em seu coração, porque você não pode abrir uma cartilha de pré-escola mesmo que aos 80 anos de idade, ou, uma porcaria de um livro de “Introdução à...”, não, ou você já era para ter nascido “com a luz”, escolhido ou não, e seu caso é não, deve conformar-se e não ser esforçado nem “perguntador”, deve conformar-se apenas, e cheio de rancor, ódio e inveja dentro de seu pequeno coração curvar-se aos deuses e templos do saber que vem misteriosamente a eles, sem explicação, talvez por extraterrestres e não dos livros introdutórios e para iniciantes.
   Pois talvez fosse você uma ameaça ao brilhantismo dos escolhidos e não houvesse pedestais para tantos deuses no mundo. Ou, talvez, cada deus tivesse ele mesmo de parar alguns segundos com a brincadeira, descer e limpar seu próprio pedestal, e cada um estaria limpando o seu próprio para depois subir nele novamente. Fantástico.
   Talvez, pudéssemos, deuses que seríamos viver na pele a diferença entre duas situações e apreendê-las para sempre em nossos divinos corações: uma situação é estar parado e ver a garota popular passar, cheirosa e vistosa, por um segundo diante de seu campo visual, como um flash e sumir; e a outra situação, a de você caminhar lado a lado com ela antes de ela se lavar, se perfumar, se vestir, dirigir-se àquele local onde você estaria parado, e sentir ao lado dela o que é passar por você, e continuar ao lado dela caminhando, sem mágica, até ela transpirar, liberar seus seus odores, tirar a maquiagem ou esta se derreter, e com ela permanecer e vê-la fazer o mesmo que você faz em seu trono, da mesma cor, e todas as demais necessidades e higiene pessoal, e poder ver que as horas para ela passam do mesmo modo que para você.
   Neste último caso eu garanto que você a veria de outra forma, e seria mais humano, teria mais piedade para com a humanidade.
   Pensando nestas coisas temo que estejamos vivendo um período de fanatismo e de mitologias, novas máscaras para seres antigos. Máscaras onde jalecos brancos, óculos nerds, ternos e gravatas, taillers, pastas executivas, pílulas mágicas, e achismos, substituem as máscaras antigas, às quais sempre nos coube prestar cultos de aceitação ou de negação a tudo isso, conforme se esteja cheio ou não de repulsa às mágicas explicações onde para você sobra sempre o resto da mesa dos escolhidos.
    Mas, nunca nos ocorreu nem àquela época nem hoje não sermos nem contra nem a favor a elas, mas simplesmente pedirmos os livros (ou cartilhas de alfabetização, por que não? O orgulho não deve existir) e sermos “perguntadores” insaciáveis.
    Pensando estas coisas, é claro que não sou hipócrita, que não nego que dons existem. Mas penso que dons existem para serem contemplados e admirados. Mas só, dons não devem justificar injustiças e distorções egoísticas, ambições e cupidez. Coisas belas são dignas de admiração, contemplação e não para ditar regras, não para justificar absurdos nem a fuga às explicações lógicas e simples das coisas.
    O meu cachorro tem o dom de morder, de castigar mesmo, estraçalhar ladrões, é um dom canino, e ele vive em minha casa, mas não é porque ele é o melhor em expulsar ladrões que ele dará as ordens em minha morada, na minha casa mando eu;
    Também não é porque o Pelé tem o dom com a bola que vamos proibir as peladas de final de semana;
    Não é porque Einstein era um gênio, que estamos proibidos de estudar;
    Não é porque Camões sabia rimar que ninguém mais pode brincar com as palavras, até mesmo porque se não estudarmos sobre poesia não poderemos nunca apreciar a arte dele, tudo que ele fez com as palavras, estudar que eu digo é ter uma noção;
    Não é porque Pavarotti tinha o dom de cantar que nós não podemos ler sobre música para entendermos tudo que ele fazia, ou, que não podemos cantar com os amigos, no chuveiro ou etc, ou fazermos um curso para cantarmos mais gostoso e o chuveiro não sair correndo...
    Se eu não sou capaz de escrever isso, se isso soa ridículo ou afronta, se incomoda, e, se essas cores com que pinto as coisas gera a ira e violência dos deuses, então, eu, infelizmente, posso estar certa de que já chegamos à beira do abismo onde o fundo cheio de mitos e fanatismos nos aguarda o salto.
Hilde Camargo – 07/08/2011.

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